Planike.

Oficina de violino · guia de construção e cuidado

Como nasce um violino: da madeira de abeto e ácer ao ajuste final do cavalete

Um guia editorial, etapa a etapa, sobre o trabalho numa oficina de violaria: a escolha e a secagem da madeira, a função de cada peça da caixa, o entalhe da abóbada e dos efes, a montagem do braço, o verniz, a regulação do cavalete e aquilo que acontece quando um instrumento entra para reparação.

Pormenor de um violino envernizado em tom âmbar: o efe recortado no tampo, a borda com filete e a curva da ilharga, com o cavalete ao fundo
O efe, a borda e a ilharga: três pontos onde se nota o rigor do entalhe e do acabamento.

Conteúdo

O que encontra neste guia

O violino parece um objeto simples: uma caixa de madeira, um braço e quatro cordas. Na prática, é o resultado de dezenas de decisões encadeadas, em que cada etapa condiciona a seguinte. Este texto segue essa ordem, tal como ela costuma acontecer numa oficina, e explica o porquê de cada gesto, sem pressupor conhecimentos prévios.

  1. As etapas de construção
  2. Abeto e ácer: escolha e secagem
  3. Tampo, fundo, ilhargas e alma
  4. Abóbada, espessuras e efes
  5. Braço e escala
  6. Preparação e aplicação do verniz
  7. Cavalete e altura das cordas
  8. Cuidados correntes
  9. A oficina de reparação

01

As etapas de construção, pela ordem em que acontecem

A maioria dos violeiros trabalha hoje com um molde interior, uma forma de madeira à volta da qual se monta a estrutura das ilhargas. É um método herdado da tradição cremonense e tem uma vantagem clara: define o contorno do instrumento antes de qualquer outra peça existir, e todo o resto passa a ser referido a esse contorno.

A sequência pode variar de oficina para oficina, mas a lógica é quase sempre a mesma:

  1. Preparar o molde e colar-lhe os blocos de canto, de cima e de baixo.
  2. Dobrar as ilhargas a quente e colá-las aos blocos; reforçá-las com as contra-ilhargas.
  3. Traçar o contorno do fundo e do tampo a partir da estrutura das ilhargas.
  4. Entalhar a abóbada exterior de ambas as placas e embutir o filete.
  5. Escavar o interior e acertar as espessuras (a graduação).
  6. Recortar os efes no tampo e colar a barra harmónica.
  7. Retirar o molde, colar o fundo e depois o tampo, fechando a caixa.
  8. Esculpir o braço e a voluta, encaixar o braço na caixa e colar a escala.
  9. Preparar a madeira, envernizar e deixar curar.
  10. Montar: alma, cavalete, cravelhas, estandarte e cordas — e regular.

Entre o primeiro corte e a primeira nota passam, em regra, várias semanas de trabalho efetivo, a que se somam os tempos de espera da cola e, sobretudo, do verniz.

02

Abeto e ácer: como se escolhe e se seca a madeira

O tampo de um violino é quase sempre de abeto, uma madeira leve, rígida no sentido do veio e com boa capacidade de transmitir vibração. O fundo, as ilhargas, o braço e a voluta são tradicionalmente de ácer (bordo), mais denso e mais resistente, muitas vezes com a ondulação a que se chama «flama». A escala, as cravelhas e o estandarte são de madeiras duras e escuras, como o ébano.

A madeira é cortada em cunhas radiais, «em quarto», para que os anéis de crescimento fiquem perpendiculares à superfície da placa. Esse corte dá estabilidade dimensional e um comportamento previsível durante o entalhe. As duas metades de cada cunha são depois abertas como um livro e coladas pela aresta, o que produz um tampo e um fundo simétricos.

Secagem

Madeira acabada de cortar ainda tem muita água e continua a movimentar-se. A secagem natural, em local arejado e ao abrigo do sol e da chuva, costuma prolongar-se por vários anos; muitos violeiros guardam lotes de madeira durante uma década ou mais antes de os usar. O objetivo não é apenas reduzir a humidade, mas deixar que as tensões internas se estabilizem.

03

Tampo, fundo, ilhargas e alma: o papel de cada peça

A caixa de ressonância não é um recipiente passivo. Cada parte tem uma função mecânica e acústica, e o equilíbrio entre elas é o que dá ao instrumento a sua resposta.

O tampo

É a placa que mais vibra. Recebe a pressão das cordas através do cavalete e converte-a em movimento de ar. Debaixo do pé grave do cavalete corre a barra harmónica, uma tira de abeto colada ao longo do tampo que o reforça e distribui a vibração pela superfície.

O fundo

Mais denso e rígido, o fundo reflete e sustenta. Responde à vibração que lhe chega através da alma e das ilhargas e tem grande influência na cor do som e na projeção.

As ilhargas

São as paredes laterais, com cerca de um milímetro de espessura. Mantêm a distância entre as placas, definem o volume de ar interior e, com os blocos e as contra-ilhargas, dão superfície de colagem ao tampo e ao fundo.

A alma

Um pequeno cilindro de abeto, colocado sem cola entre o tampo e o fundo, perto do pé agudo do cavalete. Apoia o tampo contra a pressão das cordas e liga acusticamente as duas placas. Deslocá-la uma fração de milímetro altera o equilíbrio entre cordas graves e agudas, por isso o seu ajuste é uma das operações mais delicadas da oficina.

04

Abóbada, espessuras e efes

O tampo e o fundo não são planos. A abóbada — a curvatura que sobe desde a borda até ao centro — é entalhada com goivas e depois afinada com pequenas plainas de dedo e raspadores. Uma abóbada demasiado alta ou com flancos muito cavados pode tornar o som abafado; uma abóbada baixa demais tende a perder resistência. O desenho segue normalmente um modelo histórico e vai sendo verificado com moldes de perfil.

Depois da face exterior, escava-se o interior. A graduação das espessuras faz-se com um compasso de medir, ponto a ponto: no tampo, os valores ficam habitualmente perto dos 2,5 a 3 mm, enquanto o fundo é mais espesso ao centro e mais fino junto às bordas. Muitos violeiros acompanham este trabalho percutindo e flexionando a placa, à procura de uma resposta equilibrada e não apenas de um número.

Os efes

As aberturas em forma de «f» deixam o ar interior comunicar com o exterior e tornam o centro do tampo mais flexível. São marcadas a partir de um molde, furadas nos olhos superiores e inferiores e recortadas à faca. A posição dos entalhes centrais dos efes define onde assenta o cavalete, e a sua forma é, para quem conhece a violaria, uma espécie de assinatura de cada construtor.

05

Braço e escala: geometria que o músico sente na mão

O braço e a voluta saem normalmente de uma única peça de ácer. A voluta é um exercício de escultura quase independente do resto; o braço, pelo contrário, é pura geometria. O encaixe na caixa define o ângulo das cordas sobre o cavalete e, com ele, a pressão que o tampo vai suportar.

Três medidas são decisivas: a altura do braço sobre a borda do tampo, a projeção (a altura a que a linha da escala passa sobre a posição do cavalete) e o alinhamento com o eixo central do instrumento. Pequenos desvios aqui obrigam a compensações no cavalete ou tornam o instrumento desconfortável.

A escala, em ébano, é colada ao braço e aplainada com uma ligeira concavidade longitudinal, para que as cordas vibrem livremente sem bater na madeira. Na extremidade superior fica a pestana, cujos entalhes guiam as cordas para o cravelhal.

  • O braço está centrado em relação aos efes e ao botão.
  • A projeção corresponde à altura de cavalete prevista.
  • A escala tem concavidade suave e uniforme.
  • A pestana deixa as cordas baixas, sem as fazer vibrar contra a escala.
Fila de violinos envernizados pendurados pela voluta numa parede de madeira, com a madeira flamejada do fundo visível no primeiro instrumento
Instrumentos acabados, pendurados pela voluta. O verniz deixa ver a flama do ácer.

06

Preparação e aplicação do verniz

O verniz protege a madeira da humidade, da sujidade e do desgaste do uso, mas também influencia a forma como as placas vibram. Uma camada espessa ou demasiado dura pode amortecer o som; por isso o acabamento de um violino é fino e aplicado em várias demãos leves.

Antes da cor vem a preparação. A madeira em branco é muitas vezes exposta à luz solar ou a uma fonte ultravioleta para ganhar um tom quente natural, e recebe um fundo que sela os poros e realça o veio, sem penetrar em excesso. Só depois se aplicam as camadas coloridas.

Óleo ou álcool

Os vernizes a óleo, feitos com resinas cozinhadas em óleo de linhaça, secam lentamente e exigem luz para curar, mas ganham profundidade e elasticidade. Os vernizes a álcool, com resinas dissolvidas em álcool, secam depressa e permitem trabalhar mais rápido, à custa de uma aplicação mais exigente. Muitas oficinas preparam o seu próprio verniz, ajustando a resina, o pigmento e a consistência.

  • Superfície limpa e raspada, sem marcas de lixa ou pó.
  • Demãos finas, com cura completa entre cada uma.
  • Polimento leve apenas no fim, sem aquecer a superfície.
  • Tempo de repouso antes da montagem final.

07

Cavalete e altura das cordas

O cavalete é comprado em bruto, mas nenhum serve tal como vem. É preciso ajustar os pés à curvatura do tampo até assentarem sem folga, reduzir a espessura, abrir os recortes e definir a curvatura do topo, que tem de permitir tocar cada corda sem tocar as vizinhas.

A altura das cordas mede-se na extremidade da escala. Como ordem de grandeza, num violino as cordas costumam ficar entre cerca de 3 mm na corda Mi e 5 a 5,5 mm na corda Sol, mas o valor certo depende do tipo de cordas, do estilo de tocar e da geometria do braço. Cordas muito altas cansam a mão esquerda; cordas muito baixas zumbem contra a escala.

08

Cuidados correntes entre visitas à oficina

Um violino bem construído pode durar séculos, mas é um objeto de madeira fina, colado com cola animal e sob tensão permanente. As variações bruscas de humidade e temperatura são o principal inimigo: no verão húmido de muitas zonas do litoral português a madeira incha, e em casas aquecidas no inverno pode secar demasiado e abrir fendas.

  • Guardar o instrumento no estojo, longe de janelas, radiadores e do porta-bagagens do carro.
  • Manter a humidade ambiente, se possível, entre 40 e 60 %.
  • Limpar a resina das cordas e do tampo com um pano macio e seco depois de tocar.
  • Não usar produtos domésticos de limpeza ou polimento sobre o verniz.
  • Trocar as cordas uma a uma, para não deixar cair a alma.
  • Afrouxar ligeiramente a crina do arco quando não está a ser usado.
  • Observar regularmente a posição do cavalete e o estado das juntas.

Se a alma cair, se aparecer uma fenda ou se uma junta abrir, o melhor é deixar de tocar e baixar ligeiramente a tensão das cordas até o instrumento ser visto.

09

O trabalho da oficina de reparação

Grande parte da atividade de uma oficina de violaria não é construção, mas manutenção e restauro. O princípio é conservador: intervir o mínimo necessário e, sempre que possível, de forma reversível. É por isso que as juntas se colam com cola animal quente, que pode voltar a ser aberta com calor e humidade sem danificar a madeira.

Reparações frequentes

  • Juntas abertas entre o tampo e as ilhargas, geralmente causadas por variações de humidade.
  • Fendas no tampo, coladas e reforçadas por dentro com pequenos taquinhos.
  • Buracos das cravelhas gastos, que se enchem e voltam a furar.
  • Escala com sulcos, que se aplaina para recuperar a concavidade.
  • Ajuste da alma e novo cavalete, para corrigir o equilíbrio sonoro ou a altura das cordas.
  • Retoques de verniz em zonas gastas, sem cobrir o acabamento original.

Muitas destas reparações exigem abrir a caixa, retirando o tampo com uma lâmina fina ao longo da junta. É um procedimento normal numa oficina e, feito com cuidado, não diminui o instrumento.

Contacto

Escrever ao Planike

Correções, sugestões de temas ou dúvidas sobre os textos podem ser enviadas por email. O Planike é um projeto editorial e não presta serviços de construção ou reparação.

[email protected]